Passaram-se anos, anos rotineiros onde eu tentava ganhar coragem para abrir o livro que me deixaste em cima da mesa, antes de partir com as malas , sem dar qualquer explicação deixando-me aqui, com a nossa filha que ainda nem o teu nome conseguia pronunciar. Tivera-o guardado na estante mais alta que tinha em minha casa, mesmo lá cima de tudo. Era uma tentativa para não o estar constantemente a ver, tentativa essa que não teve resultado; porque todos dias lá ia eu, subia a uma cadeira e apenas observava sem nunca ter coragem de lhe tocar sequer, mas ultimamente não estava a ter forças suficientes para subir, e as dificuldades em andar cada vez eram maiores.
Mas hoje, o sol estava forte, e eu muito fraca, apesar disso, senti que tinha que ser naquele dia. Subi a estante e peguei nele, o tempo ainda não tinha desbotado aquela cor viva, aquele cor-de-rosa que sempre foi a minha cor preferida, e tu, tu sabias disso, e mesmo assim na despedida tinhas que o usar contra mim. Sentei-me no sofá, onde lias todos os dias o jornal, e depois de um longo suspiro, desfiz o laço de ceda que o fechava, abriu e vi: vi que era a história da cinderela, mais uma vez jogaste contra mim, ao saber que gostava mesmo dessa historia, mas, lá dentro tinha uma carta, onde tinhas escrito estas mesmas palavras:
“ Meu amor, não tive força para me despedir, mas tive que ir para a guerra, é o meu dever. Prometo-te que daqui a um ano volto, cuida bem da nossa Alexandra, e lê-lhe esta historia todos os dias, depois vamos guardar e um dia iremos ler, juntos, para os nossos netos. Vou ter saudades, e nunca percas as esperanças, eu voltarei. Não te esqueças, eu amo-te, e sim, és a mulher da minha vida”
O Mundo parou naquele momento, apenas as minhas lágrimas corriam no meu rosto, tinha estado este tempo todo enganada, tudo por orgulho de pensar que te foste embora e me tinhas deixado aqui sozinha com a solidão. Afinal foi a morte que nao te deixou voltar, apesar de o desejares. Passados alguns minutos, ouvi crianças a correr, eram os nossos netos, e sabes o que é que eles queriam? Que lhes contasse uma historia.
Nesse momento, o meu coração parou, fui ter contigo, e só me resta pedir perdão.
